Você está investindo tempo buscando seu desenvolvimento pessoal através de livros, sites, palestras, cursos e começou a perceber que está deixando de ser uma pessoa normal? As pessoas começaram a estranhar a sua mudança? Ainda bem! Você está no caminho certo.

No artigo de hoje quero responder um e-mail que recebi de um leitor do Transcendência Financeira que também acompanha o meu trabalho no Clube dos Poupadores. Ele disse:

Olá Leandro,

Acompanho seu trabalho já a algum tempo no Clube dos Poupadores e agora o leio no Transcendência Financeira. Parabéns pelo excelente trabalho. Desde o início do meu aprendizado através dos seus artigos, venho aplicando muito daquilo que absorvo e, sempre que possível, tento multiplicar esse conhecimento àqueles com quem convivo. No entanto, para a minha surpresa, em conversa com minha namorada, escutei: “… em relação a tudo, você está querendo analisar… depois que você começou com esse seu desenvolvimento pessoal, você pensa que virou psicólogo. Sempre que falo sobre meu pai, sobre comprar algo ou sobre um problema, você não fala como uma pessoa normal, você vem com técnicas de análise…” Dessa forma, pergunto: você já passou por algo semelhante? Existe realmente um ponto em que nos tornamos pessoas “chatas” para alguns de nossos entes queridos?

Existe uma frase atribuída ao filósofo grego Platão que adaptei para a nossa realidade. Ela ficou assim:

“Pessoas pequenas falam sobre pessoas. Pessoas normais falam sobre coisas. Pessoas grandes falam sobre ideias”.

É muito provável que a maioria das pessoas que você conhece está sempre falando de outras pessoas. Mesmo que você tente falar sobre outros assuntos, elas sempre levam a conversa para um julgamento sobre a vida dos outros. Jugam a aparência, comportamento, ideias, decisões, etc. Falar dos outros é o tema preferido das pessoas de mentalidade pequena.

Existem pessoas que não falam tanto das outras pessoas, mas gostam muito de falar sobre as coisas. Pode ser as coisas que perderam, as coisas que possuem ou as coisas que pretendem ter. Essas são as pessoas medianas ou normais. Elas estão sempre muito preocupadas com as suas próprias coisas ou com as coisas dos outros.

Por fim, existe um grupo pequeno que prefere falar sobre o mundo das ideias. Talvez você tenha poucos amigos que gostem de falar de ideias.

Pessoas que gostam de falar de pessoas costumam buscar informações sobre pessoas. Existem fontes de informação sobre a vida de cantores, atores, políticos, jogadores de futebol e outros famosos. As pessoas que preferem as coisas encontram as mais variadas fontes de informação sobre as coisas. Sua dedicação ao mundo das coisas acaba se tornando um hobby. Quando você dedica muito tempo acompanhando determinadas pessoas acaba se tornando um fã ou um hater. Muitas vezes a atividade de falar sobre pessoas e as coisas das pessoas se misturam. Existem livros e revistas para atender esses públicos.

Como as pessoas que falam sobre ideias são a minoria, elas acabam incomodando as pessoas que preferem falar de pessoas e de coisas. Vou dar um exemplo real.

A televisão está cheia desses programas onde pessoas aparecem preparando comida. São programas de reality show culinários. Esses programas atraem muito a atenção do grande público. As próprias emissoras estimulam o debate do público sobre as pessoas que participam dos programas através das redes sociais. Não faz muito tempo que uma das participantes de um desses programas foi alvo de críticas de pessoas que gostam de falar de pessoas e das coisas das pessoas, como as roupas. Fonte da notícia abaixo.

 

Aqui estão algumas críticas que a participante recebeu sobre as suas roupas (coisas):

Podemos ver nos exemplos acima que as pessoas não estão muito preocupadas com as habilidades da moça na cozinha ou as ideias por trás do seu modo de vestir. Ideias diferentes do que é “normal” costumam incomodar. Por trás das roupas repetidas existe uma questão que está no mundo das ideias e não no mundo das coisas.

A moça do reality show culinário publicou um longo texto na sua rede social para explicar quais são suas ideias sobre as roupas. Ela falou sobre questões ideológicas. Veja o texto completo aqui.

É muito provável que poucos tenham se interessado pelas ideias relacionadas com suas roupas. Falar de ideias parece ser coisa de gente que não é normal. O normal é falar sobre a pessoa e as coisas das pessoas. As ideias é coisa de gente chata e estranha.

Zuckerberg (criador do Facebook) e o Steve Jobs (criador da Apple) costumam usar o mesmo estilo de roupa. Par eles, a maneira como escolhem suas roupas não tem relação com as coisas (roupas) mas com as ideias. Eles acreditam que o cérebro humano só consegue responder a um determinado número de questões por dia. Usando sempre roupas iguais, eliminam-se dúvidas sobre o que vestir. Eles desperdiçam menos energia mental nessas questões que julgam irrelevantes. É claro que milionários bem-sucedidos não se importam mais com as pessoas que falam das suas roupas (fonte). Dependendo da empresa onde você trabalha, do cargo e dos clientes que você atende, não respeitar as normas do que é “normal” ou “anormal” vestir pode representar problemas.

Voltando para o caso do leitor.

Eu entendo perfeitamente o problema que esse leitor do Transcendência Financeira está passando. Todas as pessoas que buscam o desenvolvimento pessoal passarão pelo mesmo problema.

Faz algum tempo que vi uma pessoa palestrando. Ela apresentou um simbolismo para aqueles que estão buscando uma conexão com o mundo das ideias.  Segundo o  palestrante, isso acabará tirando nosso interesse sobre mundo das coisas.

Observe a figura abaixo e imagine que a sua atenção possa ser representada por um triângulo. A base do triângulo tem a área de contato maior. A ponta do triângulo tem a área de contato menor.

Quando você aponta a base da sua atenção (triângulo) para o mundo das ideias, o seu contato com o mundo das coisas é o menor possível. Quando você aponta a base da sua atenção (triângulo) para o mundo das coisas, o seu contato com o mundo das ideias é o menor possível.

É por esse motivo que as pessoas que estão voltadas para o mundo das coisas julgam as pessoas que se voltam para o mundo das ideias como anormais ou estranhas. São maneiras diferentes de contato com a realidade. São formas diferentes de ver o mundo.

Diante de fatos da vida, a maioria tenderá a olhar para as coisas e julgar as pessoas. Raras serão as pessoas que enxergarão o fato de uma perspectiva mais elevada e ampla, partindo do mundo das ideias que é a causa de todas as coisas.

Se a cozinheira do reality show veste apenas uma roupa, a origem desse comportamento está no mundo das ideias. Se existe alguma coisa interessante para conversar sobre o fato, essa coisa está nas ideias que ela apresentou na rede social e não no modelo da roupa que ela usava, se eram roupas bonitas, feias, dentro ou fora da moda.

Quando a namorada do leitor do Transcendência Financeira diz: “Sempre que falo sobre meu pai, sobre comprar algo ou sobre um problema, você não fala como uma pessoa normal”, ela está querendo dizer “Sempre que eu falo de pessoas (meu pai) ou sobre coisas (compras) e dos problemas (envolvendo pessoas e coisas), você não fala como uma pessoa normal (pessoas normais falam sobre coisas e pessoas)”. As pessoas que possuem a atenção voltada para o mundo das coisas se irritam quando você escolhe falar sobre as ideias ou em uma perspectiva mais elevada do problema.

Sim, você será chamado de anormal se falar sobre ideias com pessoas que querem falar sobre coisas. Se a reação das pessoas for apenas com palavras, sinta-se feliz. Ser um “anormal” vivendo no mundo dos “normais” não é fácil. Muitos nomes famosos da história da humanidade perderam a vida por falarem sobre ideias.

Essa questão de ser normal ou anormal me fez lembrar uma frase do Prof. Hermógenes. Ele dizia “Deus me livre de ser normal”. Ele foi o pioneiro da Yoga no Brasil, com mais de trinta livros publicados. Dedicou sua vida ajudando os outros na busca por uma melhor qualidade de vida física, mental e espiritual. Foi uma pessoa que falou de ideias.

Eu acredito que ao entender que as pessoas possuem sua atenção voltada para as coisas, podemos agir da maneira que essas pessoas possam nos entender, sem que a nossa “anormalidade” se transforme em “chatice”. Devemos ser normais com quem é normal e anormais com quem é anormal.

Se isso não for feito, o isolamento gradual será uma tendência de quem busca o desenvolvimento pessoal. A vida é um processo de apuração dos nossos gostos. Na medida que você se desenvolve como pessoa, você vai perdendo o gosto que tinha por determinados temas e vai apurando seu gosto por novos temas. Chega o momento em que você perderá o interesse pelas conversas normais das pessoas normais e não encontrará muitas pessoas interessadas pelos temas para onde o seu interesse está voltado.

Quanto mais você subir na escada do desenvolvimento humano, maior será a sua solidão. Maior será a sua vontade de descer alguns degraus para puxar as outras pessoas que ficaram para trás.

Isso é a grande engenhosidade do desenvolvimento humano. Quando você chegar no topo e olhar para os lados procurando alguém para comemorar com você, verá que está sozinho e que agora o único caminho é o de retorno, para ajudar aqueles que ainda estão subindo.

A sabedoria está no aprender a colaborar com o desenvolvimento das pessoas sem que elas percebam isso com clareza. Se perceberem, irão resistir. Você não pode puxar as pessoas para cima e nem empurrar para que subam pela força. Elas precisam subir com as próprias pernas.

Provavelmente tudo no universo possa ser modificado por forças externas, mas nada externo pode mudar a natureza das pessoas. Elas só mudam quando elas querem mudar.