Todas as pessoas do mundo possuem uma coisa em comum. Todas estão neste momento buscando a felicidade. Elas seguem caminhos diferentes que dependem do grau de sabedoria e desenvolvimento ético e moral de cada uma.

Os políticos e empresários ricos, que estão neste momennãto presos por envolvimento em crimes de corrupção, buscavam a própria felicidade, só que estavam desprovidos da sabedoria necessária para atingir esse objetivo por meios éticos. Certamente existem políticos e empresários de consciência mais elevada que também estão buscando a felicidade, só que sem o  uso de atalhos, através do caminho certo e justo, embora esse seja o caminho mais longo e trabalhoso a ser percorrido.

Essa mesma lógica vale para trabalhadores pobres e sem os privilégios dos políticos. Enquanto muitas buscam a felicidade sem passar por desvios e atalhos, através do desenvolvimento pessoal e profissional (caminho que exige muita dedicação e paciência), alguns partem para os atalhos no mundo do crime para atingirem aquilo que acreditam ser a felicidade.

A falta de sabedoria e de ética não afeta somente pessoas que não tiveram acesso a uma boa educação e oportunidades na vida. Os estragos provocados pela falta de sabedoria e ética, em pessoas inteligentíssimas, que tiveram a oportunidade de estudar nas melhores universidades, é incalculável. Dinheiro e poder são apenas ferramentas que potencializam seus atos. Um político rico, poderoso e corrupto, consegue estragar a vida de milhões de pessoas ao mesmo tempo. O pequeno bandido de um bairro pobre qualquer só consegue estragar a vida de uma pessoa por vez nos crimes que comete. O dinheiro potencializa quem somos.

No artigo anterior falamos sobre o que é ética. Espero que você tenha observado que existe uma estreita relação entre optar por levar uma vida ética e atingir um verdadeiro e duradouro estado de felicidade. Esse estado de felicidade é bem diferente da busca por felicidades que todos foram doutrinados a seguir. Talvez, por este motivo, o mundo esteja repleto de pessoas que acordam todos os dias para torná-lo um pouco pior. Pioram o mundo quando decidem buscar a felicidade olhando apenas os fins, sem perceberem que o mais importante está nos meios. As cadeias estão repletas de pessoas que escolheram os meios errados. O mundo está cheio de vítimas de pessoas que escolherem os meios errados.

Como mostrei no artigo anterior, se fossemos como os animais, seriamos escravos dos nossos instintos e desejos. Só poderíamos fazer aquilo que nossos instintos nos ordenassem fazer. Não existiria em nós a “força de vontade” que nos liberta do cumprimento dessas ordens e nos permite fazer aquilo que acreditamos que deva ser feito, mesmo indo na contramão dos nossos desejos e da nossa natureza animal.

A origem de muitos problemas enfrentados pelas pessoas está no fato de que muitas ainda vivem como os animais, ou seja, são escravas das ordens que os instintos e desejos não param de emitir dentro de suas mentes. A satisfação desses instintos e desejos costuma ser confundida com a felicidade plena.

Imagine que um cientista maluco resolveu fazer experiências genéticas para colocar o cérebro humano em um leão. Após um acidente no laboratório, o leão foge e começa a se reproduzir na natureza sem qualquer possibilidade de controle. Dotado de inteligência equivalente a nossa, mas sem a capacidade de discernimento entre o que é certo ou errado, bom ou mau, justo e injusto, o animal começa a desenvolver tecnologias, armas, veículos e soluções avançadas capazes de satisfazer seus instintos de sobrevivência e perpetuação da espécie, sem qualquer preocupação ética, buscando cada vez mais prazeres as custas de todos os seres e do próprio planeta.

Infelizmente isso que descrevi já ocorre entre nós, seres humanos. Milhões de pessoas vivem escravas dos seus próprios instintos. Usam a inteligência que possuem sem a devida sabedoria e valores éticos e o resultado disso se materializa em todas as misérias e sofrimentos humanos.  Essa escravidão, segundo alguns pensadores, é a base da infelicidade humana por nos impedir de crescer e prosperar em todas as áreas da vida. O ato de crescer, na maioria das vezes, exige fazer escolhas, por meio da razão, que são contrárias ao que ordena nossos desejos

Já vimos nessa série de dois artigos (artigo 1 e artigo 2) que seguir nossos instintos nos fará comer como se os alimentos disponíveis fossem escassos. Já foi assim quando a humanidade perseguia alimentos ou era perseguida como um alimento nas savanas e florestas. Vimos que precisamos fazer um grande esforço para não gastar todo o nosso tempo com distrações (leia aqui). Também vimos que crescer intelectualmente exige esforço e paciência (leia aqui).

Agora vamos aprofundar esse pensamento. Será que a busca por esse tipo felicidade não seria nosso maior erro?

Tudo é adequado

Você já deve ter observado que tudo que existe na natureza é adequado à sua finalidade. Cada órgão do seu corpo é adequado à sua finalidade. Seu coração é o melhor órgão do seu corpo para movimentar o seu sangue, graças a um conjunto de características que somente ele tem. Já o seu intestino é o melhor para movimentar os alimentos. O mesmo ocorre com cada elemento químico da tabela periódica, com cada planta, cada animal e cada ser vivo.

Logicamente não poderia ser diferente com os humanos. Se todos os seres e todos os elementos do mundo são adequados à sua finalidade, certamente a sua vida, a minha e de todos os seres humanos possuem uma finalidade e ela está relacionada com as características que nos tornam únicos e adequados à essa finalidade. Ser feliz ou não depende se iremos ou não cumprir nossa finalidade.

O que seria a felicidade de uma mangueira? Nascer, nutrir-se, crescer e produzir mangas. Dessa forma ela estaria fazendo o melhor que poderia ser feito com suas características únicas, para atingir sua finalidade no decorrer da sua vida. O que move as plantas para atingirem sua finalidade é a vitalidade.

O que seria a felicidade de um cão? Nascer, nutrir-se, crescer e produzir outros cães. Mas aqui existe uma coisa que caracteriza os cães e todos os animais. Eles são capazes de buscar o prazer (conforto) e fugir da dor (desconforto) ao seguirem seus instintos. O que move os animais para atingirem sua finalidade são seus desejos, resultado dos instintos ou sua inteligência instintiva. Todos os animais já nascem sabendo exatamente tudo que precisam fazer para viver uma vida prazerosa e distante da dor.

O que seria a felicidade humana? Será que nascer, nutrir-se, crescer e procriar seria suficiente como ocorre com as plantas? Será que a busca por mais conforto e prazer seria suficiente como ocorre com os animais?

Tem muita gente acreditando que a felicidade humana se resume ao que uma planta faria durante a vida (nascer, crescer, multiplicar e morrer). Outros acreditam que, além disso, bastaria atingir o máximo de conforto e prazer, que entre nós humanos pode ser maximizado quando temos o poder proporcionado pelo dinheiro.

Arrisco dizer que bilhões de pessoas vivem movidas pela vitalidade (como as plantas) e pelos instintos (como os animais). O problema é que a vida instintiva não é suficiente, pois o que caracteriza e distingue o homem de todos os outros seres para o tornar adequado à sua finalidade é a razão ou pensamento racional. Por meio da razão que temos a força de vontade necessária para dominar os instintos que nos aproximam da natureza animal e impedem nosso crescimento como seres humanos. O que move os homens para atingirem sua finalidade é a vontade, resultado do uso da razão ou inteligência racional.

A vontade não é o desejo. A vontade é o resultado da razão a serviço da existência humana. O desejo é o resultado do instinto a serviço da existência animal. Temos nosso lado animal e humano. Desejos e vontades estão sempre em conflito e precisamos escolher entre seguir um ou o outro em cada situação. O nível de sabedoria, ou de ignorância, que usamos para escolher entre um e outro, em cada situação, é aquilo que mais nos diferencia.

A vontade resulta de um esforço da sua inteligência. O desejo surge gratuitamente, sem qualquer esforço. Por ser humano, e não um animal irracional, sua vida deveria ser definida pela vontade consciente e não pelo desejo inconsciente.

A razão não é adequada para a felicidade

Você provavelmente já ouviu histórias de pessoas ricas, famosas, saudáveis e com os recursos necessários para satisfazer todos os seus desejos, sonhos, prazeres, mas que se sentem tristes e frustradas.

Quantas pessoas você conhece com boa condição financeira, mas que vivem uma vida sofrida, vazia e sem sentido? Para preencher esse vazio, muitos mergulham nos vícios do consumismo, alcoolismo, drogas, abusos alimentares e até do trabalho compulsivo.

Mesmo satisfazendo nossos desejos e buscando o máximo de prazer através dos abusos dos nossos sentidos, parece que falta alguma coisa.

Grandes pensadores como o filósofo Immanuel Kant, defendem a tese de que a razão humana, ou seja, nossa capacidade de pensar racionalmente, não é adequada para a busca da felicidade. Temos uma característica única, que é a razão, e essa tem o poder de atrapalhar a satisfação dos nossos desejos e instintos mais primitivos. Veja a descrição da animação do macaco ladrão.

Nesse dia, o macaco foi feliz ao saciar sua fome. Sua ação foi motivada pelos seus instintos. Roubou e se arriscou pelo prazer que é saciar a fome. Fugiu rapidamente movido pelo medo. Desprovido de razão, sua felicidade não foi impedida por julgamentos éticos e morais. Pouco importa para ele se fez o bem ou o mal, de forma justa ou injusta, por meios certos ou errados.

No pensamento de Kant, se a finalidade humana fosse a felicidade, a natureza teria cometido um erro ao nos “equipar” com a capacidade de pensar racionalmente, pois os instintos já seriam mais do que suficientes para garantir essa felicidade animalizada (que busca os prazeres e foge da dor).

Para ele, seria um absurdo imaginar que a máquina biológica mais poderosa já criada pela natureza (o cérebro humano), teria como única finalidade permitir ao homem satisfazer todos os seus desejos e instintos animais. Uma “arma” tão poderosa a serviço dos instintos nos levariam rapidamente até a nossa própria intinção e a destruição do planeta. Isso já quase ocorreu no final da última guerra mundial. Após a morte de milhões de pessoas, o mundo ficou próximo de mergulhar em um conflito nuclear. A inteligência humana servindo à satisfação dos instintos, sem o uso da razão, é uma verdadeira catástrofe natural. Observe a destruição que estamos assistindo no planeta diante do consumismo como uma maneira de satisfazer infinitos desejos de posse, ostentação e acumulação de coisas.

A ignorância é uma benção?

O pensamento não é adequado para buscar a felicidade. O instinto é adequado para buscar a felicidade.

É fácil constatar que para maximizar o prazer, o animal humano sempre buscou meios para reduzir suas capacidades cognitivas. Por toda a história da humanidade, buscamos plantas, compostos naturais e sintéticos capazes de reduzir nossa capacidade de pensamento e discernimento.

Um exemplo claro ocorre com o uso do álcool. Ao entrar na corrente sanguínea e atingir o lobo frontal do cérebro, o álcool reduz nossas capacidades mentais. Sem as limitações impostas pela razão, fazemos coisas que não faríamos se estivéssemos sóbrios. Entorpecer as áreas do seu cérebro responsáveis pelas decisões racionais e pelo prazer geram uma sensação artificial de liberdade, felicidade e bem-estar.

Diante disso, a ignorância e a irracionalidade seriam uma benção? Seria esse o segredo da felicidade? Bastaria satisfazer todos os seus instintos, desejos e prazeres, ficando bem longe de qualquer possibilidade de uso da razão? Usar os químicos para isso seria válido?Certamente esse não é o segredo da felicidade, mas milhões de pessoas mergulham nessa ilusão.

Não é assim que funciona

Existem pessoas que vivem na mais completa miséria. Teriam todos os motivos do mundo para serem infelizes. Não conseguem satisfazer necessidades básicas. Não possuem recursos para garantir sua alimentação, educação, trabalho, saúde e bem-estar. Mesmo assim, muitas dessas pessoas demonstram viver na mais completa felicidade.

Se a felicidade está na satisfação dos prazeres e desejos, de onde a mulher abaixo tira sua felicidade? Clique na imagem abaixo para assistir o vídeo.



No primeiro minuto do vídeo podemos observar que a falta de um calçado, a falta de comida e de roupas não são suficientes para atrapalhar o estado de felicidade da dona Maria Lindalva. Essas carências não são suficientes para que ela ambicione os pertences das outras pessoas. No vídeo, ela descreve todo o sofrimento que passou para conquistar o pedaço de terra árido onde vive no interior do Ceará, através de algum programa de reforma agrária.

Observe que o motivo do seu orgulho e felicidade está na sua história de luta, trabalho e superação (com sofrimento) para atingir um objetivo maior, que era ter um pedaço de terra. Ela destaca que não se importava quando as pessoas passavam pelo acampamento e criticavam (sofrimento psicológico). Também não se importava com as adversidades da natureza, chuva, ventos e o chão duro para dormir (sofrimento físico). Essas dificuldades se transformaram em motivos de orgulho, pois ela percebe que conseguiu superar a si mesma (sem fugir da dor e do desconforto) para atingir o seu sonho.

Depois ela começa a descrever sua segunda superação. Na primeira, ela se superou para satisfazer necessidades básicas, comuns a todos os seres, que são as necessidades por moradia, segurança e alimento através de um pedaço de terra. Agora, Dona Maria, inicia sua segunda batalha de superação para se desenvolver pessoalmente através do primeiro e mais importante passo que é a alfabetização. Aprender a ler e a escrever na fase adulta é um desafio e ela conta suas pequenas conquistas com muita felicidade, comemorando cada pequena realização.

Mais uma vez, Dona Lindalva, demonstra felicidade na superação das suas limitações, no trabalho e na solução dos problemas para atingir um objetivo maior. Ela parece compreender que a felicidade está no caminho que precisamos trilhar entre o ponto em que estamos e o ponto no futuro onde queremos chegar. A felicidade está na maneira como conduzimos nossa jornada de crescimento e não na chegada.

A felicidade é processo, não é um objeto, coisa ou lugar. Por este motivo, felicidade deveria ser um verbo para ser conjugada e não um substantivo. Essa pequena diferença nos faz acreditar que a felicidade pode ser entendida como um lugar que precisamos encontrar ou uma coisa que podemos comprar ou que alguém pode nos dar de presente. Não existe chegada. Existe apenas o caminho. A vida é movimento. Parar significa morrer.

Algumas pessoas assistem esse vídeo da dona Maria e concluem, de maneira incorreta, que a felicidade está na pobreza. Não é isso. A felicidade está no uso da razão e da boa vontade para conquistar aquilo que queremos, mesmo que para isso seja necessário ir na contramão dos nossos instintos e desejos, ou seja, mesmo que isso represente aceitar a dor e o desconforto no presente como algo necessário para crescer. A infelicidade está nos atalhos (caminhos errados e injustos) e quando resolvemos parar de caminhar (preguiça). Não fazer nada para crescer ou buscar atalhos (prejudicando você e os outros) é garantia de problemas e sofrimento.

Agora vamos colocar muito dinheiro nessa história. O que diria o homem mais rico do mundo sobre sua própria vida?


Você deve concordar que com US$ 75 bilhões (R$ 236 bilhões) de patrimônio é possível realizar todos os sonhos materiais, desejos, instintos e prazeres possíveis e imagináveis. Essa é a fortuna de Bill Gates, fundador da Microsoft, um dos homens mais ricos da atualidade.

Parece que satisfazer desejos e prazeres não foi suficiente para Bill Gates se sentir feliz e realizado. Hoje, ele considera que fundar uma das empresas mais valiosas do mundo foi apenas uma preparação para que ele tivesse condições de fundar a sua ONG, que tem como missão melhorar as condições de vida de pessoas pobres em diversos países. Mesmo assim, Gates continua se desenvolvendo ao ler mais de 50 livros por ano, sobre os mais diversos assuntos (veja aqui).

Bill Gates inicia sua fala destacando que foi uma criança sortuda pelo fato dos seus pais terem proporcionado a ele uma boa educação. Ele tentou ser modesto. Quantas pessoas você conhece que também tiveram a “sorte” de nascer em famílias assim e que não conseguiram fazer nada de muito grandioso na vida? Quantas pessoas estudaram nas mesmas escolas por onde Bill Gates passou e não tiveram a força de vontade necessária para transformar um grande sonho em realidade?

O curioso é que quando grandes sonhos são realizados, você acaba arrastando o  mundo junto com você.

O  sonho de Bill Gates era tornar os computadores populares e fáceis de usar. Agora, ele sonha em melhorar a vida das pessoas através da sua ONG. O sonho da dona Maria era ter um pedaço de terra para plantar e agora ela sonha com a possibilidade de ler e escrever. Cada um tem o sonho do tamanho que é capaz de realizar. Ter um sonho e lutar por ele, superando-se, parece ser o mais importante na vida humana.

A jornada do Bill Gates certamente foi tão difícil quanto a jornada da dona Maria. Eles começaram em patamares diferentes. Dona Maria iniciou a luta pelo seu sonho de ter um pedaço de terra quando estava na absoluta miséria física e intelectual. Bill Gates iniciou o seu sonho quando abandou os cursos de Matemática e Direito da universidade de Harvard.

Os dois possuem em comum o prazer pela própria superação. Observe que aqui temos outro tipo de prazer. É o prazer em SER e não o prazer em TER. A felicidade humana está na batalha diária por nossa superação para que possamos ser cada vez melhores, mesmo que isso nos retire da zona de conforto, mesmo que isso vá na contramão daquilo que nossos desejos instintivos suplicam. O grande desafio é que SER depende da sua força de vontade consciente para atingir sua própria superação. Para TER você só precisa seguir seus desejos e instintos ignorando o medo, que é uma das causas da procrastinação.

Você nunca verá animais que ficaram marcados na história por terem se superado, abrindo mão dos seus instintos e prazeres imediatos para construir um mundo melhor para si e para todos os outros da sua própria espécie. Nunca veremos plantas protestando, deixando de fazer a fotossíntese para atingir seus ideais. Somente o homem foi munido com os atributos necessários para esses grandes feitos, embora poucos percebam esse enorme poder, que todos possuem de forma inata.

A foto mostra Mahatma Gandhi em uma de suas greves de fome na luta pela independência da Índia, país que foi colonizado pela Inglaterra. Seu sonho e sua superação pessoal mudou a vida do segundo país mais populoso do mundo e o seu nome ficou registrado na história da humanidade. Ele dizia que “Devemos ser a mudança que queremos ver no mundo.”

Buscar a felicidade atrapalha o seu crescimento

Se a finalidade da nossa vida fosse a busca por tudo que nos proporcionasse felicidade imediata, o crescimento pessoal, financeiro e profissional ficariam inviabilizados, pois o processo de crescimento pressupõe desconforto, esforço, correção de rota, erros, frustrações, recomeços e a dor.

Se você prestar atenção na história de pessoas bem-sucedidas, não importa se o sucesso foi na religião, no mundo empresarial, político, artístico, etc. Todas as pessoas que cresceram relatam histórias de dor para a superação das suas limitações. Veja um exemplo no vídeo “crescer dói“.

Para crescer intelectualmente, adquirindo novos conhecimentos e habilidades, você precisa estar disposto a enfrentar o desconforto que é aprender coisas novas e fazer coisas novas.

Para crescer profissionalmente, tornando-se um profissional exemplar dentro de uma empresa ou dentro da sua própria empresa, é necessário muito esforço e força de vontade para deixar a preguiça e o medo de lado.

Para crescer nas suas relações pessoais, você precisa aprender a lidar com as pessoas. Isso significa aceitar a ideia de que direitos são acompanhados de deveres.

Tudo isso significa que não é a felicidade imediata que importa na vida humana, segundo Kant. As coisas na vida que realmente valem a pena exigem esforço, desconforto e sofrimento para serem conquistadas. É isso que importa na vida humana.

Por meio da razão, podemos concluir que o que existe de mais valioso na vida é conquistar a lucidez diante do sofrimento e da dor.

Na visão do Immanuel Kant:

Para o filosofo Immanuel Kant, considerado o mais importante filósofo da era moderna, existe uma coisa que é mais importante que a felicidade animal que teimamos em buscar a qualquer preço. Para Kant, essa coisa é um atributo que só pertence ao ser humano. Ele é o único atributo que é bom em si mesmo. Todos os atributos humanos só seriam realmente bons na presença desse atributo especial que somente nós temos.

Esse atributo, Kant chama de “Boa Vontade”.

Boa vontade é o valor máximo em Kant. O sentido da vida humana estaria no ato de agir a partir de uma boa vontade. Isso seria atingido buscando a sabedoria através do contínuo aprendizado e reflexões. A vida humana e todas as suas ações só serão boas para si e para os demais se forem baseadas na boa vontade.

Para Kant, o que existe de mais fundamental na vida do homem é aperfeiçoar aquilo que existe de boa vontade dentro dele. Para vários filósofos, a vida seria um processo de refinamento dos nossos gostos, interesses e valores para que possamos construir todas as virtudes, que somente os homens podem adquirir. Cada dia seria uma nova oportunidade de subir um degrau na escada que fica entre a sua ignorância e a sua sabedoria. Ao atingir a sabedoria você não estaria livre dos problemas e fatos desagradáveis da vida, mas teria o poder de transformar esses momentos em oportunidades de progresso através do aprendizado e não de paralisia diante da dor e do sofrimento.

Todos os seres evoluem e progridem e não poderia ser diferente com os humanos. Nossa inteligência e a nossa capacidade de discernimento devem servir como instrumento para nosso progresso pessoal e coletivo. Parar no tempo ou seguir na direção contrária significa frustrar a finalidade que lhe foi dada pela vida.

Cada novo humano que nasce é uma esperança de que o mundo poderá ser melhor a partir daquela simples e pequena existência, caso ela queira crescer e se esforce para isso por meio da boa vontade. Existem inúmeros exemplos na história de homens simples que optaram pelo crescimento pessoal e arrastaram toda a humanidade junto com ele.

O filósofo Jean-Jacques Rousseau dizia que o homem morre no instinto. No meu entendimento, a humanidade que segue apenas o instinto, deixando a razão e a ética de lado, caminha para a sua própria extinção e a destruição do meio onde vive. Basta imaginar o que aconteceria se todas as pessoas, a partir de hoje, resolvessem satisfazer todos os seus desejos e vontades, sem olhar os meios, as leis, as normas sociais, a razão, apenas observando os fins, sem qualquer preocupação com o próximo.

Existem pessoas inteligentíssimas, repletas de virtudes, mas que utilizam suas virtudes (poderes) apenas para o bem próprio, sem qualquer preocupação com as consequências dos seus atos na vida das outras pessoas. O que seria uma pessoa inteligente, corajosa, forte, comunicativa, persuasiva e sedutora movida pela força da má vontade? Seria um vilão muito perigoso. Chamamos de “vilões” as pessoas que usam seus atributos para fins egoístas, saciando seus desejos e maximizando seus prazeres sem qualquer preocupação com o prejuízo e a dor alheia. São aqueles que se servem dos outros para sua própria satisfação e o prejuízo de todos.

Já os heróis, são aqueles que também desenvolvem grandes virtudes (conquistadas depois de muita superação), são inteligentes e repletos de “poderes” que o destacam dos homens comuns. A diferença é que essas pessoas estão preocupadas com os meios que usam para atingir seus objetivos. Nem todos os meios justificam os fins. As consequências dos seus atos beneficiam a todos e somam na vida das pessoas. Sua existência torna a vida das pessoas melhor e não pior. Através da ação da boa vontade elas buscam realizar seus sonhos da maneira mais correta, justa e boa. Os heróis são aqueles que servem aos outros para sua própria satisfação e ganho de todos.

É por isso que somos fascinados por histórias de heróis e vilões. Todos os anos lotamos os cinemas para assistir histórias de heróis que lutam contra os violões. As religiões também estão cheias de heróis e vilões. A mitologia grega, romana, egípcia, celta, nórdica e todas as outras também contam histórias semelhantes dos heróis e vilões.

Você é livre para escolher assumir o papel de vilão, herói ou de vítima.

Para Kant, o homem, para sobreviver, deveria transcender sua natureza, indo além da sua natureza e instinto por meio da razão e da boa vontade. Tudo aquilo que é o uso da razão para uma vida melhor é a ação da vontade. A vida humana será boa e feliz se for regida pela boa vontade e não pelos instintos.

Kant não nega o instinto, a pulsão, a inclinação e os desejos. Eles existem em todos, do mais ético homem que já existiu até nos mais  antiéticos e imorais. A maneira como você lida com eles é que faz a diferença. O que Kant diz é que instintos e desejos o animal também tem. Então, isso não é o nosso diferencial. Isso não é o mais importante, a não ser que você se conforme com a felicidade que os instintos proporcionam aos animais. Existem pessoas que vivem escravas dos seus desejos, fugindo constantemente da razão por meio de distrações mentais e físicas.


Ser feliz sem liberdade é algo praticamente impossível. Você é livre quando é capaz de fazer o que não deseja fazer. Você é livre quando delibera pela razão para agir na contramão do que clamam seus desejos e pulsões. A escravidão dos instintos é opcional entre os seres humanos, mas muito trabalhosa de ser conquistada. O vídeo acima mostra uma passagem do filme Matrix onde o personagem escolhe a escravidão e pede para que todas as suas lembranças sobre a verdade sejam apagadas. Para ele, a ignorância e a escravidão justificam os prazeres sensoriais.

Quem age de acordo com seus desejos é escravo dos desejos. Para Kant a liberdade é a soberania da competência deliberativa do homem sobre suas próprias inclinações. Você é livre quando flagra seu desejo, olha para seu desejo em tom de desafio e faz uma escolha no sentido contrário.

Essa liberdade, derivada do autocontrole e da sabedoria, seria a chave que permitiria o homem realizar seus sonhos sem as limitações importas por sua natureza desejante e instintiva.

O que seria a boa vontade?

Já que para Kant a vida humana deve ser baseada nas ações motivadas pela da boa vontade, fruto do uso da razão, como saber se a vontade que nos move é boa ou má?

Ele criou uma regra que diz: “Viva de tal maneira que a tua vontade pretenda que o princípio que rege o seu comportamento possa reger o comportamento de qualquer um”. Simplificando: “Aja de tal maneira que a sua conduta possa se transformar em uma lei universal”.

Diante de uma decisão, para saber se a sua ação é boa, universalize a sua ação fazendo a seguinte pergunta para você mesmo: Eu aceitaria que todas as outras pessoas também fizessem isso que pretendo fazer, pelos meios que pretendo utilizar? Se a sua razão concluir que seria bom, justo e correto que todos agissem da maneira que você pretende agir, isso significa que a sua ação é boa e certamente movida por boa vontade.

Se você não aceita que todos os outros ajam da mesma maneira que você pretende agir, isso significa que existe alguma coisa errada, injusta ou má na sua escolha. O problema é que nem todos são capazes de fazer esse tipo de julgamento. É necessário saber usar a razão e ser livre de qualquer interferência das suas inclinações instintivas, culturais, religiosas, políticas, psicológicas, etc. Somente alguém sábio, que dedicou muito tempo buscando o próprio desenvolvimento intelectual, ético e moral seria capaz de fazer tal julgamento acertando todas as vezes. É por este motivo que todos os povos precisam escrever leis, códigos e mandamentos para que as pessoas obedeçam, para evitar punições, mesmo sem entenderem as leis com profundidade.

Essa regra é muito semelhante aos princípios éticos que aparecem em praticamente todas as religiões e tradições antigas. Também está presente no pensamento de inúmeros psicólogos, filósofos, sociólogos e economistas. No caso das religiões, os pensamentos semelhantes são:

  • No Cristianismo: Portanto, tudo que quereis que os homens vos façam, fazei-o também a eles. − Mateus 7:12
  • No Budismo: Não atormentes o próximo com aquilo que te aflige. − Udana-Varga 5:18
  • No Confucionismo: Não façais aos outros aquilo que não quereis que vos façam. − Confúcio, Analectos, 12.2 e 15.24
  • No Hinduísmo: Esta é a suma do dever: não faças aos demais aquilo que, se a ti for feito, te causará dor. − Mahabharata (5:15:17)
  • No Judaísmo: O que é odioso para ti, não o faças ao próximo. Esta é a lei toda, o resto é comentário. − Talmude, Shabbat 31ª
  • No Islamismo: Nenhum de nós é crente até que deseje para seu irmão aquilo que deseja para si mesmo. − Sunnah

Usando apenas a sua razão, deveria ser fácil constatar que as pessoas que fazem a coisas certas, de maneira justa e boa se destacam em todas as áreas da vida. São bons pais, boas mães, bons companheiros, bons amigos, bons profissionais, bons empresários, bons políticos, bons religiosos e bons seres humanos. Boas pessoas melhoram a vida das outras pelo simples fato de existirem. Espalham bons exemplos, colecionam amigos e pessoas repletas de gratidão que estarão sempre prontas a retribuir o bem que receberam com o bem.

As pessoas não deveriam fazer o bem pelo medo de serem punidas por autoridades divinas ou autoridades terrenas. O uso livre da razão deveria ser mais do que suficiente para que todos os homens percebessem que o sentido da vida humana está na busca de mais sabedoria (menos ignorância), virtudes (menos vícios) e bons valores. Isso só é possível dominando nossa natureza.

Kant dizia que a felicidade humana você conquista sempre que não a busca. Você deve buscar aquilo que o humano deve fazer (dever humano) e a felicidade virá como subproduto.