Você deve planejar a sua vida da mesma forma que o escritor de um livro ou o roteirista de um filme planejam a sua obra. Todos os filmes, livros, quadros, músicas, prédios, fábricas, grandes e pequenas invenções, um dia existiram apenas na cabeça de alguém.

Alguém teve uma ideia, colocou essa ideia em um papel, dividiu o todo em partes, usou a força de vontade para transformar as partes em ações e essas ações sequenciadas e executadas da maneira devida, se materializaram na forma de uma nova construção humana.

Pessoas existem para materializar ideias.

Histórias de vida também são uma construção humana, assim como os livros e os filmes. A sua vida é a sua obra prima. Ela é uma consequência das ideias que você conseguiu, e as que você não conseguiu, materializar. A vida que você terá no futuro será uma consequência das ideias que você conseguirá tirar do papel e daquelas que só existirão no mundo das suas ideias.

Se a sua vida segue, um dia depois do outro, sem qualquer plano, você provavelmente está apenas vivendo as consequências, ruins e boas, dos sonhos e planos dos outros. Se você não tem um plano, você apenas faz parte da paisagem da história de vida dos outros. É como se você tivesse assumido o papel de figurante do filme da sua vida, quando você deveria assumir o papel de protagonista, diretor, roteirista e autor da obra.

Viver sem seguir o roteiro da história que você está construindo, é como viver como um figurante que apenas participa do filme da vida dos outros.

É muito vantajoso enxergar a construção da sua vida como se estivesse construindo o seu filme, onde cada dia é um capítulo e cada ano é uma temporada. Muito da sua satisfação ou da sua insatisfação com sua própria vida é o resultado dos julgamentos que a nossa consciência faz do filme da nossa vida enquanto ele está sendo produzido.

O que mais nos deixa frustrados é saber que somos os autores de cada capítulo e, como em qualquer série, tudo pode mudar de um capítulo para o outro se existir uma boa ideia e a força de vontade para superar nossas limitações e os obstáculos para torna-la realidade.

Somos os únicos seres vivos capazes de lembrar dos capítulos anteriores. Todos os outros vivem apenas um dia após o outro, como em episódios isolados e sem qualquer relação com os anteriores. Lembrar a sequência é um fardo.

Também somos os únicos que julgam a qualidade do nosso próprio filme ainda durante a sua produção, capítulo por capítulo, até o dia da última cena. Você sempre será obrigado a carregar o fardo de ser o jurado do filme da sua vida. Se isso será motivo de orgulho ou vergonha, felicidade ou tristeza, vitória ou fracasso, superação ou derrota, vai depender do que você andou fazendo nos capítulos anteriores e principalmente o que você fará acontecer nos próximos capítulos.

Existe outro peso que devemos carregar. O filme da sua vida poderá ser motivo de orgulho ou de vergonha para todos os seus descendentes. Você poderá ser alguém lembrado ou alguém merecedor de esquecimento. O filme da sua vida poderá ser apagado da memória e da história de todos os que estão por vir.

Quando seus filhos contarem o filme da sua vida para os seus netos, que tipo de filme os seus netos irão ouvir? Será que os seus netos terão motivos para contar sua história para seus bisnetos e tataranetos? Existem pessoas que passaram por aqui e que produziram histórias de vida que realmente se transformam em filmes, livros e são de conhecimento de toda a humanidade. Alguns ficaram conhecidos pelo que fizeram de melhor e outros pelo que fizeram de pior.

Por isso, o planejamento da sua vida começa pelo fim. Como será o fim da história? Quais passos você está dando, quais capítulos está compondo, qual nível de dedicação está aplicando diariamente para levar sua história para esse fim?

Sua profissão faz parte do roteiro

O autor, roteirista, diretor e protagonista do seu filme é você mesmo. Você é responsável por sua obra. Sua profissão faz parte do roteiro. É através dela que mais impactamos a vida daqueles que terão participação ou contato com a sua obra.

O maior desserviço que você pode fazer para você, sua família e toda a sociedade é assumir uma atividade profissional feita a contragosto.

Só existe uma coisa pior do que servir a contragosto. É colocar um filho no mundo sem dar para ele formação humana. Não é possível dar aquilo que você não tem. Ter uma história de vida que possa ser um exemplo para o seu filho e para os filhos dos seus filhos é a base de tudo. Você precisa se tornar uma pessoa melhor, pois será referência para o seu filho e para os filhos dos seus filhos.

Por este motivo, não só para o seu bem, mas para o bem de todos, escolha uma profissão baseada em atividades que você gosta de fazer.

É melhor que o dinheiro seja uma consequência.

Antes de falar sobre o que você gosta de fazer, precisamos falar sobre dinheiro. As pessoas sentem esse conflito entre fazer o que gostam ou ganhar muito dinheiro.

Você não vai aguentar trabalhar por muito tempo em uma atividade bem remunerada onde você é obrigado, ou obrigada, a fazer aquilo que não gosta. Seus resultados serão medíocres, sua insatisfação com a vida será notável e você vai acabar procurando fugas para preencher um vazio impossível de preencher através de atalhos.

É provável que nessa tentativa de buscar atalhos para suportar o desconforto de fazer o que você não gosta, acabe colecionando vícios e exageros de todos os tipos. Desfazer vícios e mudar maus hábitos é muito trabalhoso. O melhor é evitá-los.

Se você for empregado privado, que trabalha só por dinheiro e apresenta resultados medíocres, será sempre o primeiro na lista de futuras demissões.

Se for empresário ou profissional liberal, seus clientes não são tolos e serão capazes de perceber que você não gosta de servir, gosta apenas de dinheiro. Será questão de tempo para que você faça parte das estatísticas de empresas brasileiras que fecham suas portas poucos anos depois da sua abertura. Se conseguir empurrar o problema com a barriga, será aquele empreendedor resmungão, que está sempre jogando a culpa dos seus resultados medíocres na concorrência, no governo, na crise, nos funcionários e até nos clientes.

Já se você for um funcionário público, a estabilidade no emprego condenará você a passar toda a sua vida fazendo aquilo que não gosta. Poucos possuem a força interior necessária para trocar o certo pelo duvidoso. Você carregará o fardo da responsabilidade de ter impactado negativamente muitas pessoas graças ao serviço público prestado a contragosto. Para muitas atividades dentro do serviço público é necessário ter vocação e retidão acima de todas as outras coisas, caso não queira viver frustrado.

Pense rapidamente em tudo que você gosta de fazer.

Agora preste atenção para não cometer um erro grave. Tenha o cuidado de não confundir gostar de fazer com gostar de usufruir. São duas coisas totalmente diferentes e não entender essas diferenças fará você fazer a escolha errada. Existem muitas pessoas escolhendo profissões com base naquilo que gostam de usufruir, acreditando que estão escolhendo aquilo que gostam fazer.

Uma vez vi uma jovem na TV respondendo qual profissão gostaria de exercer e por qual motivo. Ela disse que gostaria de ser guia de turismo e o motivo era pelo fato de gostar de viajar.

A resposta dessa jovem não foi baseada naquilo que ela gosta de fazer. Ela cometeu o erro de se basear naquilo que gosta de usufruir (ser servida) e não no que gosta de fazer (servir). Quando viajamos não estamos fazendo nada, não estamos servindo e muito menos construindo. Quando viajamos estamos sendo servidos. Gostar de viajar não é motivo para gostar de ser um guia de turismo.

A resposta que a jovem deveria ter dado seria: “Quero ser guia de turismo por gostar de pessoas, por gostar de ajudar as pessoas, por gostar de informar as pessoas, por gostar de proporcionar momentos felizes quando estou convivendo com as pessoas.” Um guia de turismo precisa gostar mais de pessoas do que de viajar.

Eu não tenho nada contra gostar de ser servido. Servimos para que possamos ser servidos, mas isso precisa ser feito exatamente nessa ordem. Tentar fazer o contrário é ilusão. Profissionalmente você não será remunerado para ser servido. Sua remuneração dependerá da qualidade do seu servir.

Talvez durante sua vida ninguém tenha parado para explicar para você o que é trabalho.

Trabalho é serviço, trabalho é servir, trabalho é servir alguém, é ajudar alguém que precisa da sua ajuda, é tornar a vida de alguém melhor por ter tido contato com aquilo que você sabe fazer com o seu tempo, conhecimento e habilidades. Trabalho é construir, não usufruir.

Outra vez perguntaram para um jovem qual o motivo de ter escolhido abrir um restaurante. Ele respondeu: “Quero abrir um restaurante porque gosto de cozinhar e de comer as coisas que faço na companhia dos meus amigos”. Isso seria um motivo baseado no que ele gosta de usufruir e não naquilo que ele gosta de fazer. Ele gosta de usufruir bons momentos com os amigos e cozinhar bem pode ser apenas um meio que ele encontrou para fazer isso com frequência.

Se a pessoa respondesse que quer abrir um restaurante porque adora cozinhar para os amigos, seria melhor ela estudar para se tornar chef de cozinha para cozinhar em um bom restaurante. Mesmo assim, ela deveria entender que não estaria ali cozinhando para amigos. Ela iria cozinhar para pessoas estranhas e que nem sempre estão dispostas a fazer elogios.

Pessoas que gostam de cozinhar e abrem restaurantes descobrem que os restaurantes são empresas que precisam ser administrada. Cozinhar é apenas uma das atividades operacionais do restaurante. Donos de restaurante bem-sucedidos são bons empreendedores e nem sempre precisam ser bons cozinheiros.

Ignorar a natureza de ser útil

Todos gostam de ser úteis. A vontade de ser útil é uma característica da natureza humana. Quando você realiza aquilo que faz parte da sua natureza, isso será motivo de grande satisfação. Quando você ignora sua natureza, isso será motivo para uma grande frustração, que nem sempre tem a sua causa facilmente detectada. Outros seres não sofrem do mesmo problema. Eles não possuem a opção de ignorar a utilidade que a natureza lhes impõe.

A frustração profissional, por não fazer aquilo que gostamos, por não sermos úteis servindo o outro através de um bom trabalho, como nossa natureza nos pede, é o que muitas vezes faz a pessoa buscar a satisfação que falta através do consumismo e outros vícios.

Essas pessoas são aquelas que entram nos shoppings nos fins de semana com a seguinte ideia na cabeça: “Irei compra isso, mesmo sendo muito caro. Eu mereço. Passei a semana toda fazendo aquele trabalho insuportável”. O mesmo raciocínio pode ser usado ao entrar em um bar: “Irei beber todas, eu mereço depois dessa semana terrível”. A única coisa que você merece é se livrar desse trabalho insuportável que transforma seu dia em uma coisa terrível. Outra opção seria mudar a maneira como você vê o seu trabalho.

Dois pedreiros estavam trabalhando em uma grande obra. Eles realizavam a mesma atividade assentando tijolos. Um parecia muito triste e insatisfeito. O outro parecia muito feliz e demonstrava grande satisfação. Um menino passava e ficou observando o trabalho dos homens. Até que ele perguntou para o primeiro homem que parecia muito insatisfeito: “Olá, o que o senhor está fazendo?”. O homem respondeu mal-humorado: “Você é cego? não está vendo que estou garantindo o pão da minha família”. Então o menino fez a mesma pergunta para o homem que fazia a mesma coisa, só que com grande satisfação. O homem deu um grande sorrido e disse com muito orgulho: “Estou construindo um hospital. Vai ser o melhor da nossa cidade e graças ao meu trabalho muitas vidas serão salvas.” O sentido que você dá para o seu papel no mundo, é uma responsabilidade sua.

Todas as pessoas gostam e buscam o reconhecimento do que fazem de melhor. Quando somos crianças buscamos o reconhecimento dos nossos pais fazendo aquilo que eles nos pedem.

O problema é que devido a nossa pouca formação humana, quando crescemos, buscamos esse reconhecimento através daquilo que gostamos de usufruir e não do que gostamos de construir (fazer ou servir).

Exemplo: imagine um funcionário público que é um péssimo servidor. As pessoas que ele atende vivem reclamando da sua demora e desinteresse. Seus colegas vivem reclamando da qualidade do seu trabalho, gerando retrabalho e problemas para os demais servidores. Por ser incapaz de ser reconhecido por aquilo que serve, ele busca o reconhecimento pelo que usufrui. Publica fotos das suas viagens extravagantes no Instagram esperando curtidas ou “corações”. Publica vídeo do seu novo carro financiado, do seu novo relógio importado e da sua namorada de fim de semana, esperando receber os “likes” dos seus amigos no Facebook.

A busca do reconhecimento pelo que usufruem é o que resta na falta de reconhecimento pelo que fazem, servem ou constroem. Não preciso lembrar o impacto que isso pode produzir na vida financeira dessas pessoas que buscam esse tipo de reconhecimento como objetivo de vida ou como razão existencial.

O que você faz com o que não é útil?

Tudo tem uma utilidade e todos podem ser úteis. O nosso problema é que, no nosso caso, ser útil é opcional. Dessa possibilidade de escolha temos outro problema. O problema é o que a sociedade faz com as pessoas que fazem a opção de não serem úteis.

A sociedade faz exatamente a mesma coisa que você faz com um objeto inútil que está ocupando algum espaço importante da sua casa. É cruel, mas é um fato. A própria natureza dá um destino, nada bom, para os seres que por algum motivo deixaram de exercer a sua finalidade.

Reflita sobre como você gostaria de servir as pessoas. O que você faz de melhor, com gosto, e que ao mesmo tempo é capaz de agregar valor na vida das outras pessoas? Somente você pode encontrar essas respostas, ninguém mais. Não permita influência das pessoas na sua decisão profissional. Quem vai passar anos fazendo a mesma atividade é você e não a pessoa que deu a opinião. A frustração de ter levado a vida que os outros escolheram para você, também será toda sua.

Se você é muito jovem e passou a vida inteira sendo servido e nunca teve a oportunidade de servir, é natural que não tenha ideia de como pode ser útil. Tente perceber a diferença enorme que existe entre servir e ser servido. Observe que primeiro precisamos aprender a servir, para que depois possamos ser servidos.

Se após refletir, perceber que não gosta de muitas coisas, que não gosta de coisas que tenham algum valor como serviço, lembre-se… A vida é um processo lento de apuração dos seus gostos. Com o tempo, com as observações, com o leitura e com a experiência, seus gostos ficaram mais apurados. Reflita sobre como você anda usando o seu tempo livre.

No próximo artigo vamos refletir sobre o problema que é ficar dependente do reconhecimento e o problema que é escolher uma profissão quando a área de conhecimento que ela envolve é vista por você como um estorvo.